A desocupação do camelódromo instalado irregularmente sobre a linha férrea em Marília, concluída recentemente, trouxe desolação para aquela região da cidade. Após anos de disputa judicial, a concessionária Rumo Logística retomou a posse da área para viabilizar a reativação da malha ferroviária paulista, resultando na remoção completa das estruturas que abrigavam dezenas de comerciantes. No entanto, o que deveria ser um passo para a modernização logística da região acabou por evidenciar o profundo estado de abandono da antiga estação ferroviária, que hoje permanece como um ‘vazio urbano’ no coração da cidade.
A reportagem do jornal A Cidade percorreu o local e constatou que a desocupação não foi acompanhada por um plano de revitalização ou segurança. Onde antes acontecia o comércio informal, agora restam apenas trilhos repletos de lixo e escombros. Um dos símbolos mais emblemáticos da história ferroviária de Marília, o relógio da estação, encontra-se em estágio avançado de deterioração, sem qualquer manutenção. A área, que integra o patrimônio histórico, sofre com a ação do tempo e do vandalismo, enquanto os prédios da antiga estação seguem lacrados e cercados por matagal.
O sentimento de insegurança é a principal reclamação de quem transita pelas imediações, especialmente no período noturno. A instalação de tapumes pela Rumo Logística no acesso pela rua Nove de Julho buscou isolar o local, mas a medida é vista como insuficiente pelos moradores. Sem a presença de vigilantes ou iluminação reforçada, o trecho tornou-se ermo, favorecendo a concentração de usuários de entorpecentes e pequenos furtos.

A presença de equipes de segurança da concessionária foi notada apenas durante o cumprimento da ordem de reintegração de posse e a retirada física dos boxes. Desde então, o patrulhamento no setor é considerado inexistente por quem trabalha no entorno.
O fim de uma era sobre os trilhos
O camelódromo de Marília operou por décadas sobre o traçado da malha ferroviária. A renovação do contrato da Malha Paulista com a Rumo Logística exige a liberação total da faixa de domínio para que trens de carga voltem a circular entre Bauru e Panorama até 2028. Para os comerciantes retirados, o processo foi marcado por incertezas e indenizações que muitos consideraram insuficientes para o reinício em novos pontos comerciais.

Além do impacto social para os cerca de 150 trabalhadores que ocupavam o pátio, a desocupação levanta o debate sobre a preservação da memória ferroviária. A estação de Marília, inaugurada em 1928, é um dos poucos remanescentes arquitetônicos do auge da Companhia Paulista de Estradas de Ferro na região. O abandono do relógio e das gares sinaliza um descompasso entre o progresso logístico prometido e a salvaguarda da história local. Sem projetos concretos de uso cultural ou administrativo para o prédio da estação, o centro de Marília corre o risco de manter o abandono em sua área de maior valor histórico e comercial.
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